
A Saturnália era um festival romano em honra ao Deus Saturno que ocorria no mês de dezembro no solstício de inverno. Era celebrada no dia 17 de dezembro, mas ao longo dos tempos foi estendida à semana completa, terminando a 25 de dezembro. As Saturnálias tinham início com grandes banquetes e sacrifícios; os participantes tinham o hábito de saudar-se com “io Saturnalia”, acompanhado por doações simbólicas. Durante estas festividades subvertia-se a ordem social: os escravos se comportavam temporariamente como homens livres; elegia-se à sorte, um “princeps”, uma espécie de caricatura da classe nobre a quem se entregava todo o poder. Na verdade a conotação religiosa da festa prevalecia sobre aquela social e de “classe”. O “princeps” vinha geralmente vestido com uma máscara engraçada e com cores chamativas, dentre as quais prevalecia o vermelho, a cor dos Deuses.
O festival se iniciava no dia 17 de dezembro e durava sete dias, no tempo de Cícero. Augusto teria limitado sua duração a três dias, para que a justiça e política não ficassem paradas por muito tempo. Já Calígula determinou uma comemoração de cinco dias. Mas Macróbio escreveu que, mesmo assim, as festividades permaneceriam acontecendo no período de uma semana. Este mesmo autor afirma que antes a celebração ocorria inicialmente apenas no dia 19 de dezembro, mas com a reforma do calendário juliano (durante o governo de Júlio César), que acrescentou dois dias ao calendário, passou para o dia 17. Isso levou ao aumento de dias de comemoração, já que a data exata não ficou conhecida por toda a população.
A Saturnália reunia as comemorações pelo fim do ano agrário e religioso, somados também ao fim de um ano “velho” e início de outro novo, enchendo os romanos de esperanças e expectativas quanto as próximas colheitas e o ano que começava. Além disso, rememoravam os tempos da “Idade de Ouro” em que havia abundância e igualdade. Era uma festividade bastante comemorada, sendo uma das mais populares em Roma. Afinal, a agricultura era a atividade que estava na base dessa sociedade como meio de subsistência para os camponeses e fonte de renda para a elite.
Essa comemoração é considerada um festival civil e social, de acordo com a divisão que segue o caráter dos ritos. Durante sua comemoração faziam-se sacrifícios a Saturno e a estátua do seu templo recebia fios de lã retirados dos seus pés para representar sua libertação. Depois dos sacrifícios, tinha início o banquete público, que parece ter se iniciado em 217 a. C. Banquetes em que a imagem do Deus Saturno era colocada junto à mesa para dar-se início as festas e divertimentos.
Os assuntos mais sérios deveriam ser tratados na parte da manhã e à noite, pois durante o banquete, enquanto bebiam, deveriam falar dos assuntos mais leves e levianos. Esses dias deveriam ser de alegria. Faziam-se piadas e jogos de azar eram realizados pelas ruas, os quais eram proibidos no restante do ano.
Um costume comum na Saturnália era visitar os amigos e trocar presentes. Os presentes eram as Sigillaria, pequenas figuras de terracota, prata ou velas de cera, representando a luz na escuridão.
Era tradicional a inversão da ordem social durante a comemoração em honra a Saturno. Todos os homens, escravos ou cidadãos, ficavam em igualdade. As barreiras jurídicas eram ficticiamente abolidas. Os escravos portanto, não precisavam trabalhar, podiam se vestir como seus senhores, participar das refeições e jogar dados. Os tribunais eram fechados e com a consequente ausência de leis, não estariam transgredindo a ordem de fato.
A Saturnália foi comemorada até a Era Cristã, mas com o nome de Brumália (ocorria no início do inverno e era uma das festas em honra a Baco). Em meados do século IV d.C., teria sido absorvida pela comemoração do Natal, havendo uma continuidade na prática da troca de presentes oriundas do festival. Alguns autores também defendem a hipótese sobre haver uma relação entre a Saturnália e as comemorações do carnaval, devido ao caráter de inversão da ordem social ocorrido nos dias das festividades.
Saturno é um Deus itálico e seu culto foi importado da Grécia para Roma, como ocorreu com diversos outros Deuses. Ele teria sido expulso do monte Olimpo por Zeus e se instalado no Capitólio, onde fundou um povo chamado Saturnia. Acredita-se também que foi acolhido por Jano, igualmente oriundo da Grécia. Seu reinado na região do Lácio ficou conhecido como a “Idade do Ouro”, pela paz e prosperidade alcançadas. Segundo os relatos lendários, nesse período Saturno teria continuado a obra civilizadora de Jano e ensinou à população a prática da agricultura.
Salvas a Saturno!
Imagem: Virgil Solis (1514-1562)